quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Luanda - Benguela: a Odisseia - Parte III

Sábado, 19 de Fevereiro, 17h00:

Chegada a Catumbela (aeroporto de Benguela). Gosto do nome de Catumbela e de Benguela. Têm qualquer coisa de quente, melódico, melancólico, distante e, ao mesmo tempo acolhedor e familiar. Além disso, rimam com um número infinito de palavras, o que dá um jeitão para os poemas pirosos que gosto de inventar.

Hoje fui a Catumbela
Levei a minha chinela
E uma flor amarela,
Ai que estava tão bela!
E quando dei por ela
Já estava lá em Benguela
A pintar uma aguarela
Pendurada à janela.

(podia continuar eternidade fora, mas vou guardar o resto para uma próxima oportunidade, para não gastar o repertório).


Faltou pouco para me ajoelhar e beijar o chão, tal era a alegria de estar em solo firme, rodeada de pessoas que me são queridas e de quem já tinha tantas saudades. Só não o fiz porque a chuva arreigada (que tinha começado a dar o ar da sua graça mal aterrámos) ia arruinar o meu penteado. Mentira, que àquela altura já não tinha penteado - na realidade nunca o tive - e o drama nunca me assentou muito bem.

Optei por relaxar e aproveitar o tour magnífico pelas ruas de Benguela que os meus primos generosamente nos proporcionaram.

Fiquei logo consolada:






Depois do tour, nada melhor que um autêntico jantar caseiro luso-africano, não sem antes saborear a paracuca mais gulosa que já comi. Paracuca é uma espécie de amendoim (pequenino) que é tostado e depois pacientemente caramelizado. Preciso de dizer mais alguma coisa? Preciso: este levava canela. Quais amêndoas da Páscoa, quais ovos de chocolate: o coelhinho devia era andar a distribuir paracuca com canela mundo fora e de certeza que toda a gente seria muito mais feliz. Excepto a minha Mãe, que gosta tanto de canela como eu de queijo. Faziam-se uns especiais, acho que ninguém levaria a mal.

Claro que a paracuca era acompanhada com cerveja Cuca. Cuca paracuca. E não era uma Cuca qualquer - era a Cuca da Catumbela - que é especialmente fantástica pelas características da água da zona.

"Filho, vai comprar-me arroz por favor. É do carolino".

E lá fomos ao mini-mercado para suprir a falta. Ao contrário do que acontece em Luanda, em Benguela duas moças de tenra idade e um cavalheiro de 14 anos podem andar a pé, à noite, com tranquilidade e descontracção. Um desconhecido lá me cravou o cigarrinho da praxe, mas lume é que já não lhe podia oferecer, graças ao Sr. Agente.

O mini-mercado (um dos vários que se encontravam abertos) estava incrivelmente mais bem apetrechado e asseado que os de Luanda. Só não havia era arroz carolino, mas quem come carolino também come agulha.

Cumprida a missão, regressámos a casa. O menu do jantar amavelmente preparado pelos meus primos (segundo consta, mais ele que ela) consistia numa entrada de ameijoas à bulhão pato, seguida de alheira, chouriço e carne de porco grelhada com arroz (agulha). Estava d'aqui. Muito obrigada meus queridos primos.

A chuva já tinha dado tréguas e o calor - para minha alegria - convidava a mais umas Cucas... fora de casa.

Fomos parar ao Ferro Velho, um bar onde se ouve de tudo um pouco, se vê de tudo um pouco e se canta de tudo um pouco. Até houve quem cantasse a "Pedra Filosofal" num (in)feliz dueto feminino. A de calças brancas tinha uma linda voz, já a outra... Valha-nos a Cuca da Catumbela.

"Rita, queres vir beber um copo?"

"Ok, encontramo-nos aí no Ferro Velho! Vou com uns amigos e depois vamos dançar um bocadinho!"

Não me fiz de rogada para dar um salto à disco dance da moda, acabadinha de inaugurar, chamada D. Q. (lê-se Dom "Qiu" - diminutivo de D. Quixote, para os amigos).Dava 10 a 0 a muitas discotecas de Lisboa. Enorme, arejada, com vários espaços (exteriores e interiores), 3 disk jokeys' e música para todos os gostos. Lá se dançou mais um bocadinho de kizomba e mais um bocadinho de samba (não semba, que isso ainda é muito à frente para mim).

A noite acabou pelas 3h30, hora razoável para quem ia madrugar e aproveitar o pouco tempo que restava do dia seguinte na Província. É que o avião de regresso a Luanda era às 15h45. Mas o melhor era não pensar muito nisso.

"Até um dia, Rita!"




2 comentários:

Catarina disse...

Alô prima! Gosto do que escreves. Parece que estou aí, viajando contigo.
Adorei a rima.. LOL. Não sabia que tinhas tanto jeito!!

FTM disse...

Obrigada Prima! Estou a deixar passar uma carreira ao lado ;)