quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Regresso ao passado


Há coisa de três anos, mais ou menos por esta altura, fui passar o fim-de-semana a Barcelona, para participar num torneio de Ultimate Frisbee, desporto que pratico desde 2008.

Comprei o bilhete online, no site da Vueling, com uma antecedência extraordinária (tal era a vontade) e por isso não me surpreendi que o preço fosse mais baixo que o habitual. Partida na sexta feira, dia 30 de Outubro, e regresso no domingo. 100 euros. Limpinho. Ai tão contente que eu estava. Nada melhor para fugir à rotina que dois dias fora do circuito lisboeta.

Uma semana antes de embarcar, recebo um e-mail da Vueling,

"Perdon por la molestia..." 

Mau. 

Estes sacanas das companhias low cost pensam que têm o rei na barriga.

Depois de muita conversa lá percebi que tiveram de antecipar uma hora o voo de regresso. Não me causava grande molestia, queria era ir, e lá aceitei a alteração sem estrebuchar. 

A partida correu sem makas. Há poucas sensações como a de me enterrar na cadeira do avião (à janela, sempre à janela) colocar os headphones, música no volume máximo, pensar "levem-me. levem-me pelo ar", ver o quotidiano tão pequenino, tão insignificante, a afastar-se e a afastar-me, a sentir a gravidade no umbigo e a relativização de todos os problemas e de toda a existência. Mesmo que seja por umas breves horas. 

Foi um fim-de-semana delicioso, desportiva e socialmente intenso, daqueles cheios de histórias para contar e que se estendem na memória durante toda a vida. Felizmente, a vida, tem-me proporcionado muitos momentos como esses. E todos eles estão muito bem guardados.

Chegou o domingo, por acaso bastante chuvoso, mas adequado ao regresso. Um casal amigo que também tinha voo marcado para a mesma altura fez comigo o trajecto para o aeroporto. Ele, português, seguia para Munique, ela, francesa, partia para Lyon. 

O voo para Lyon era o primeiro a descolar e foram feitas as devidas despedidas. É sempre comovente observar um casal apaixonado a dizer, uma vez mais, até breve. 

Pouco depois, chegou a minha vez e o meu amigo acompanhou-me até à segurança. Não levava bagagem de porão e já com o check in feito entreguei o meu boarding pass ao segurança.

Ele olha para o bilhete, olha para mim, olha novamente para o bilhete e diz-me com o olhar mais despiciente que já me foi lançado e com o sotaque mais comum que já ouvi

"Your flight is not today. It's tomorrow"

Claramente ele estava a ver mal.

Agarrei no papeleco e confirmei: data de regresso - 2 de Novembro.

Então hoje não é 2 de Novembro?

Regresso à realidade aos trambolhões e apercebo-me do óbvio: a culpa é da Vueling.

Aquele pernicioso e-mail enviado com uma semana de antecedência era uma armadilha. Além da hora, alteraram o dia de regresso, de propósito, os malandros, e nem me disseram nada. Sacanas! Trastes! Devem pensar que têm o rei na barriga.

O meu amigo, que nessas coisas também não se fica, agarrou em mim (que já começava a ficar ruborizada de aflição) e não esteve para meias medidas,

Vamos já à Vueling reclamar disto. Pede o livro de reclamações. Isto não pode ficar assim, quem é que eles pensam que são? Vais já exigir que te ponham no voo seguinte ou que te devolvam o dinheiro.

Ah pois é. Comigo não se brinca. 

E lá nos enfileirámos para o guichet da Vueling, autoritários do meu direito de reclamação. O pior é que não podia faltar ao trabalho na segunda-feira. Tinha mesmo de regressar. E comecei a ficar verdadeiramente nervosa.

Chegada a minha vez, expliquei em portunhol e espanglês a situação. 

E a resposta não foi inovadora. "Perdon por la molestia pero..." já não havia mais voos.

Qual perdon qual quê pá! Esto es absolutamente inaceptable! Quiero another flight ahora! Today! Give me the book of reclamaciones por favor. Como podes alterar la data de um flight sem dizer expressamente ao passenger! This is an ultraje!

Já os meus olhos marejavam e os meus braços despregavam como bandeiras, quando o funcionário pediu-me para esperar um pouco.

Ainda por cima. São mesmo uns trafulhas.

Acometida por um estado de ansiedade, revolta, nervosismo e preocupação não contive a choradeira. Vejo agora que é um estado recorrente da minha parte, tenho de ver se resolvo isto.

De repente ocorreu-me, assim do nada, 

Será que me enganei a marcar a data de regresso?

Que disparate, respondeu-me o meu amigo muito indignado, como é que te ias enganar numa coisa dessas? Ninguém se engana nessas coisas! Não querias regressar domingo? Então como é que te ias enganar?

Pois está claro, óbvio que não me enganei, que disparate. A culpa é da Vueling.

Entretanto, chegava a hora da descolagem do voo para Munique e o meu amigo teve de me deixar.

"Assim que souberes de mais alguma coisa manda-me uma mensagem. E não saias daqui sem pelo menos te devolverem o dinheiro."

"Ai não tenhas dúvidas"

Não demorou muito mais tempo para o senhor funcionário regressar com mais explicações. Os meus olhos chispavam. "Olhe, a única alteração que foi feita no voo reservado por si, foi a hora. Não alterámos o dia. Mas eu consegui um bilhete para ir neste voo que vai sair agora. Tem aqui o bilhete mas tem de ir já fazer o check-in, imediatamente."

Mixed feelings

Agarrei no bilhete, e como não sou de rancores meti o braço pelo buraquinho do vidro do guichet, apertei-lhe a mão e disse "Muchas gracias señor! Muchas gracias!"

Corrida para o check-in. Entretanto liga-me o meu amigo. 

"Não sei como, deve ter sido no meio da confusão, fiquei com o teu bilhete de identidade, só que o meu voo vai sair agora e o gate vai fechar..."

Sem bilhete de identidade não há check in para ninguém. Pois é.

"Vou deixar o bilhete de identidade com uma das senhoras que estão a fazer a segurança. É uma senhora um bocadinho forte, morena..."

Toca a correr as filas todas, em passo de maratona nos últimos cem metros, enquanto perguntava atabalhoadamente às calmeironas de pistola à cintura, todas fortes e morenas, qual delas é que tinha o meu bilhete de identidade. À quarta tentativa, bingo. Desafio superado.

Corro para o check in. Já fechou o guichet para o voo destinado a Lisboa, mas ouço, como que uma voz do além, "last call to Lisbon!"

"ME!! ME!! It's ME!!"

Foi o check in mais rápido da história. Passo de maratona outra vez, agora como se fossem os últimos 10 metros para o gate. Ainda aberto.

Desafio superado.

Entro no avião. Enterro-me na cadeira. Não preciso de música, tenho os ouvidos a zumbir fininho. Acesso de vergonha: e se me enganei mesmo a marcar a data de regresso...?


Tenho apenas mais uma coisa a acrescentar: a Vueling é a minha companhia aérea low cost preferida.

1 comentário:

Gloria Moutinho disse...

bom demais!!!
(adoro ler-te!)