segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Validade ilimitada

Desde tenra idade que tenho grande apreço pelo conforto de um leite quente com mokambo e açúcar antes de ir para a cama. Não é um hábito frequente (cada vez menos porque me briga com o estômago), mas ainda me sabe bem naquelas noites que acabam tarde e com um ligeiro ronronar na barriga.

Numa dessas noites, já com o leite a fervilhar e a mistura solúvel a tingir a caneca, dei com o açucareiro vazio. Rai's parta - é toda uma rotina que se quebra. E eu, que adoro rotinas - a mecânica da memória dá-me liberdade ao pensamento. É surpreendente o que se descobre enquanto se lava os dentes. Com o sobrolho levantado, interrompi a meditação e arrastei-me até à despensa. Entre a farinha e o óleo lá encontrei o presunçoso pacote de papel na segunda prateleira a contar de baixo. Agarrei no tijolo doce e, contra o que é habitual na minha pessoa, procurei a data de validade. 

(já começa a ser altura de inventar um molde ergonómico para aqueles monos, que mais parecem o meu porta-moedas no final do mês)

Revirei três vezes o inchado embrulho e eis se não quando me apercebi que o açúcar - ou pelo menos aquele pacote - não tinha validade. Na parte em que se lê "consumir de preferência antes de" estava escrito validade ilimitada. Senti um misto de espanto, euforia e constatação da minha própria imbecilidade. 

Portanto, o açúcar é imperecível? Sou a última pessoa do mundo a saber isto? Nem quero imaginar até onde vai a minha ignorância.

Muito francamente, foi uma descoberta que me deixou feliz. Ou pelo menos que me fez sorrir e voltar à minha rotina. Hoje em dia, em que tudo é descartável, efémero e passageiro, há pelo menos um elemento na nossa vida que nunca se estraga, nunca apodrece, nunca perde qualidades, independentemente do tempo que tenha passado. O açúcar é um amigo para a vida - desde que não ingerido.

Vou resistir às metáforas óbvias e às analogias fáceis que se podem desenvolver a partir da imperecibilidade do açúcar directamente para o nosso quotidiano e para os nossos relacionamentos - acho que é um exercício pessoal que deve ficar para cada um de nós. 

Mas por favor, quando eu morrer, cubram-me de açúcar.


6 comentários:

Lisbon Loves Fashion disse...

Ameiii o texto <3<3<3
bisus

FTM disse...

Obrigada minha querida!!! Beijinhos!!

Alexandra disse...

Muiiiiiito bom Flipinha!!! ;)
Tens tanto jeito para escrever! x

Nadia Novais disse...

Bem dito Açucar!!!
;-)

bjs

Filipa Matta disse...

Obrigada meninas!!! Grande beijinho!!

camaleoa disse...

Hahaha..
As coisas que eu aprendo contigo dama... :)

Foi bom rever-te.. ;)