terça-feira, 10 de maio de 2011

Ainda há boas almas

Foi quando desci do autocarro em pleno Marquês de Pombal e, apressadamente, perscrutei com a ponta dos dedos a minha mala em busca do telemóvel (gesto que se tornou num hábito compulsivo nos últimos anos) que me apercebi que me faltava a carteira. Chamo "carteira" ao sumptuoso mono que arrasto comigo diariamente dentro da minha mala e onde guardo todos os meus preciosos cartões, papéis e talões de supermercado de há 3 anos atrás.

Entre a maralha de lixo de papel e plástico ainda há espaço para o bilhete de identidade, carta de condução, cartão de contribuinte e outras coisas enfadonhas mas absolutamente essenciais para provarmos a nossa identidade, morada, profissão e sabe Deus o que mais. Cartão do cidadão? Que é isso? Não quero ter nenhum Big Brother. Pelo menos até à próxima renovação do bilhete de identidade.

Dei por mim com as duas mãos dentro da mala e sem dedos suficientes para encontrar o meus precioso mono entre os restantes hóspedes que lá convivem caoticamente.

Pânico.

Cartão de crédito.

Duplo pânico.

De repente lembrei-me do que tinha ido fazer ao Marquês e porque procurava apressadamente o telemóvel. Tinha uma amiga à espera para almoçar. Enquanto caminhava atabalhoadamente rua fora na direcção do ponto de encontro, recapitulava todos os meus passos até então. Teria deixado o mono em casa? Não. Lembro-me do seu inefável peso na minha mala quando fechei a porta. Teria deixado cair no autocarro? Na rua? No trabalho? Ou terá sido um larápio que ma levou?

Cheguei ao pé da minha amiga afogueada e confusa. Já não a via desde a minha partida para Luanda.

Luanda.

Se houve coisa que aprendi em Luanda foi a "desproblematizar" os dramas e a "desdramatizar" os problemas. Depois do que se vê por lá, tudo é relativo.

Respirei fundo e concentrei-me no urgente. Liguei para o banco e cancelei o cartão de crédito. Quanto ao resto, já que tinha dinheiro para o almoço, optei por dar atenção à minha amiga e pôr a conversa em dia, razoavelmente conformada com a situação, que agora apenas requeria muita paciência nas filas de espera da loja do cidadão. O que me transtornava era a ideia de passar a pertencer ao obediente rebanho do cartão do cidadão. Raios!

Quando regressava do almoço, já imaginando a via sacra das segundas vias, toca o meu telemóvel. Era do meu antigo local de trabalho.

"Por acaso perdeu a carteira?"

OH abençoado lixo que guardo no meu mono. Entre os items absolutamente inúteis estava também um cartão de visita, com os meus antigos contactos de trabalho. Podem ser papeletas inúteis, mas são preciosas. Como as pedras.

Uma boa Alma encontrou a carteira no caixote do lixo e num acto de generosa benevolência teve o descernimento e a paciência de bisbilhotar os meus papelecos um por um e entrar em contacto para a única referência telefónica relacionada comigo que encontrou. Infelizmente também deve ter visto a foto da minha carta de condução.

E voilà! Dez minutos depois voltava à posse do meu estimado mono. Ainda me disponibilizei para retribuir o gesto, mas o simpático Senhor, já de alguma idade e com simplicidade nos modos e na indumentária apenas me disse:

"Não quero nada disso. Para a próxima tenha mais cuidado."






2 comentários:

Tiago disse...

Tives te foi muita sorte.
Ja imaginas te o que seria teres de esperar em interminaveis filas para renovares todos os cartoes?

FTM disse...

Já imaginei e não foi agradável ;)